segunda-feira, 6 de abril de 2020

Soltar amarras simbólicas

Este texto foi escrito no dia 3 de Abril de 2020, ainda relutei em publicar porque achei que poderia ser um impulso mas não é.

Conversas iniciais:


Em um momento em que parece tudo parar, somos confrontados com a necessidade de ação. Por mais paradoxal que isso possa parecer o que pode nos caber especialmente como educadores, é nos orientar para a produção.

O papel do professor, pesquisador, artista, museólogo ou qualquer outro status profissional em que se enquadre; se este tem a reflexão como elemento de produção (simbólica), então se encontro entre os que de fato são interpretados como "parasitas" dos meios de produção, (dentro da ortodoxia marxista), usufrutuário da mais-valia gerada pelo trabalho dos operários, estes os transformadores da matéria prima em bens de consumo e os legítimos detentores dos direitos aos lucros etc.. Nessa categoria de consumidor do trabalho do proletariado está quase toda a classe média e todas as elites econômicas, independentemente de seu papel e atuação na sociedade.
Então com que podemos contribuir para a sociedade?
Com nosso "capital intelectual"; ou seja com o que aprendi e produzi ao longo de minha existência e estou pronta para compartilhar. Basicamente é o que os professores/educadores fazem toda vez que pisam em uma sala de aula.
Neste momento em que estamos sendo convidados a refletir e refazer trajetórias, a inventar e reinventar modos de interagir, descubro que ao contrário do que imaginei encontrar: solidariedade e demonstrações de reciprocidade , me deparo com o seu oposto - egoísmo e narcisismo.
O que é irônico e paradoxal. O contexto das instituições de pesquisa e ensino e se levarmos em conta que todo profissional com nível superior fez um juramento em que este deve se colocar á disposição da sociedade quando assim demandada as circunstâncias; uma vez que quase todos os professores no ensino superior  do meu conhecimento (a não ser nos países Liberais e Neoliberais), tiveram sua educação patrocinada pelo Estado. (Foram alunos de Instituições Públicas, gratuitas; nas suas formações de pós graduações foram bolsistas e tiveram renda complementada por programas associados às suas condições de professores (são minoria absoluta os que tiveram bolsas negadas por origem sócio económica que não é a realidade económica, diga-se de passagem)). Pessoas com este tipo de formação são de fato uma elite (tanto por serem minoria como por terem papel de intelectuais) e mesmo havendo o fator de esforço e capacidade individual, esta só existe porque foi dada a oportunidade.
Então o meu sentimento neste momento em que o mundo enfrenta uma pandemia tão avassaladora quanto a Peste Negra, quando meus pares deveriam contribuir para organizar institucionalmente  e produzir alternativas e meios de divulgação científica para um diálogo mais democrático entre todos os setores da sociedade,  colocando nosso conhecimento à disposição e principalmente dos nossos alunos e não o querem fazer, o meu sentimento é de revolta, impotência, infelicidade e por fim desprezo.
Por isso e por que acredito que já o deveria ter feito, irei compartilhar este espaço  ex-alunos, conhecidos, amigos próximos e distantes, para que contribuam com suas reflexões as tornando públicas através desse meio.

Portas do conhecimento são para serem abertas, 
muros transpostos, jardins explorados,
 janelas desobstruídas...

O que sei me foi ensinado, 
o que descobri me apontaram o caminho, 
o que criei me deram a oportunidade, 
então nada se fez no isolamento,
nada existe se não for conhecido.

Não há música sem ouvintes,
nem poesia sem leitores,
nem obras de arte sem expectadores.
Não há fé sem almas,
não há saber sem difusão,

Não há, não há...




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